POR QUE CERES NÃO ATRAI EMPREENDIMENTOS EMPRESARIAIS DE MAIOR PORTE?



Um dos grandes clamores de parte significativa da população de nosso município, enfatiza a necessidade de atração de indústrias que possam empregar uma grande quantidade de pessoas.


Essa demanda se repete a cada ano e ganha força no período eleitoral quando, inexoravelmente, os postulantes ao cargo de prefeito incluem a atração de empresas para a cidade em seus discursos.


Na prática, o receituário adotado, não somente em Ceres como na maioria das cidades da região, inclui: visitar empresas (normalmente agronegócio), oferecer incentivos fiscais e disponibilizar terrenos para a instalação das mesmas, às vezes de forma “avulsa”, às vezes de forma aglutinada por meio da criação de um Distrito Industrial, ou algo desse tipo, normalmente desprovido de infraestrutura e mal planejado.


Enquanto esse trabalho – pouco produtivo – é desempenhado pelos gestores da nossa cidade, sem registrar nos últimos anos resultados significativos, empreendimentos locais, na medida que ganham tamanho, acabam migrando diretamente para Goiânia, ou gradativamente vão se afastando da cidade, primeiro indo para Rialma ou Goianésia e depois, tomando o rumo da capital do Estado.


Se a cidade de Ceres é uma cidade importante na região, possui uma infraestrutura melhor do que a apresentada pelas demais cidades do Vale de São Patrício, conta com uma boa oferta de serviços bancários, educacionais e de saúde, apresenta o melhor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – entre as cidades do interior da região Centro-Oeste do Brasil e ostente uma mão de obra razoavelmente bem instruída quando comparada com as demais cidades goianas, o que há de errado com Ceres que não consegue atrair e nem manter empreendimentos industriais de maior porte?


Para desvendar este mistério, vamos primeiro levantar quais são os fatores que determinam a localização de um empreendimento industrial. São os seguintes: a) disponibilidade e matérias-primas, b) disponibilidade de fontes de energia, c) disponibilidade de mão de obra, d) existência de mercado consumidor, e) boa infraestrutura de transporte, f) rede de comunicações em bom funcionamento, g) incentivos fiscais, e h) mão de obra qualificada.


No que diz respeito à oferta de matérias-primas, percebemos que o setor que poderia ser mais facilmente atraído e estimulado seria o agronegócio, todavia, esbarramos na falta de escala, ou seja, nossa produção e nossa produtividade é relativamente pequena quando comparada a outras regiões.


O segundo item da lista – disponibilidade e fontes de energia – é atendido, todavia, cabe lembrar que, em decorrência de uma séria de fatores de ordem técnica, a eletricidade que usamos aqui é comparativamente mais cara do que a ofertada em outras localidades.


Unindo o terceiro e o último item da nossa lista em uma única análise, apesar de sermos uma cidade urbanizada, onde 95% da população vive no perímetro urbano, somos uma cidade pequena e não obstante o nível de instrução elevado de parte da população, não contamos com oferta de gente qualificada para a indústria e mesmo que ofertássemos qualificação desse tipo, as pessoas treinadas tenderiam a migrar para outras cidades, pois não encontrariam campo para atuar em Ceres, portanto, esse dilema constitui obstáculo significativo.


A infraestrutura da cidade é boa, porém, o serviço de internet ainda constitui ponto fraco. Além disso, nossa posição geográfica nos coloca em desvantagem frente a outras cidades que estão literalmente coladas na BR-153, que seria nossa principal via de escoamento para o maior mercado consumidor disponível (Goiânia). Neste sentido, o tráfego de veículos pesados dentro das cidades de Ceres e Rialma resultaria transtorno para a população e aceleraria a deterioração das vias públicas resultando em custos adicionais para as prefeituras. Em última instância, a empresa teria que criar uma infraestrutura logística paralela que viabilizasse o negócio e não interferisse na cidade constituindo assim em custo adicional para a empresa.


O que restaria a Ceres, diante desses apontamentos, seria apenas a estratégia do incentivo fiscal, que teria que ser tão agressiva diante dos pontos negativos listados que correria o risco de torná-la proibitiva, ou seja, obrigaria a cidade a fazer tantas concessões que acabaria causando mais prejuízo do que benefício à mesma. Além do mais, seria necessário manter esse incentivo por um período de tempo muito mais longo do que o normal, posto que, provavelmente, tão logo o incentivo acabasse, o empreendimento migraria para outra cidade com melhores vantagens.


Pois bem, feitos estas considerações, fica evidenciado que qualquer tentativa de incentivar a indústria em Ceres demandará muito mais do que a boa vontade do gestor e a simples oferta de vantagens fiscais. A estratégia vai além da tradicional criação de Distritos Industriais que, em nosso caso, definitivamente, não funciona e exige um planejamento muito mais elaborado.


E aqui, eu acrescento um fator determinante para a dificuldade ceresina em atrair e manter empreendimentos industriais de maior porte: A inexistência de um Plano Municipal de Desenvolvimento Econômico que não seja uma peça meramente figurativa e que contenha em seu bojo políticas públicas que se estendam para além do ciclo eleitoral.


Enquanto fizermos mais do mesmo em matéria de política industrial em nossa cidade, continuaremos com os mesmos resultados pífios verificados nas últimas décadas.


O desenvolvimento da economia local não se concretiza mediante decreto e o empresário não decide instalar sua indústria em uma cidade apenas porque a cidade é bonita ou porque as pessoas precisam de emprego. Ele precisa de resultados e a decisão de ficar ou partir depende dos ganhos reais que ele obtém em uma ou em outra situação.


Ceres precisa se concentrar no que ela possui de melhor e mais desenvolvido para, a partir daí, criar as condições necessárias para o florescimento de empreendimentos locais que, no futuro, servirão de atrativo para os empreendimentos maiores, ou seja, se o que temos de melhor está no Arranjo Produtivo Local de Serviços de Atenção à Saúde e na existência de uma boa quantidade de Instituições de Ensino Superior formando acadêmicos de várias áreas, é a partir dessas organizações, em sintonia com a disposição dos Gestores Públicos de nossa cidade, que deve florescer o protagonismo necessário para começarmos a repaginar nosso município em um processo que – obrigatoriamente – demanda muito mais do que quatro anos para se concretizar.

Econ. Alexandre B. Marques

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