POR QUE PROJETOS PÚBLICOS DEMORAM TANTO PARA SEREM CONCLUÍDOS?


Vou tentar responder essa pergunta com base na experiência que tenho em gestão pública municipal.


Vamos lá!


1º Pressão por resultados combinada com desorganização: Normalmente, o gestor municipal reside na cidade que administra, isso faz com que ele seja encontrado facilmente pelos moradores, ou seja, a cobrança é constante. Daí então ele precisa apresentar resultados com urgência e no afã de atender às demandas, cai facilmente na armadilha de abandonar o plano (se é que existe algum) e partir direto para a execução. Normalmente o resultado disso são as falhas no projeto que podem pôr tudo a perder.


2º Falta de alinhamento entre os projetos e o que foi planejado: As cidades não possuem orçamento para fazer o que bem entendem, ou seja, dependem de emendas parlamentares provenientes do Estado e da União. Acontece que nem sempre existe recurso específico para aquilo que a cidade precisa e previu em seu planejamento. A falta de alinhamento entre uma coisa e a outra acaba desaguando em projetos que muitas vezes são pouco efetivos, em outras palavras, não agregam valor para a sociedade.


3º Orçamento muito apertado: É muito comum “forçarem” o orçamento do projeto até o limite para evitar a necessidade de contrapartidas mais elevadas. Quando isso acontece é praticamente uma certeza que a empreiteira que irá executar a obra irá pedir realinhamento dos preços para tornar a obra exequível. Esse tipo de coisa paralisa o trabalho até que o realinhamento seja aceito e lá se vai o cronograma!


4º Projetos mal feitos: É muito raro uma cidade possuir um banco de projetos, normalmente o setor de projetos é reativo, ou seja, elabora os projetos quanto é demandado. Sempre que isso acontece a urgência se sobressai diante da qualidade, análises importantes (mas não obrigatórias) são negligenciadas, isso certamente desagua em dificuldades de execução que paralisam a obra para correções que poderiam ser desnecessárias se o projeto tivesse sido feito com calma.


5º Falta de uma boa comunicação com as partes interessadas: Saber “afinar as violas” com todos os envolvidos é fundamental para evitar desentendimentos. Quando isso não acontece a chance de a execução do projeto “azedar” é muito grande.


6º Não acompanhamento de prazos: Essa é clássica! Por exemplo, quando a licença ambiental vence e ninguém lembrou de pedir, com antecedência, a renovação da mesma.


7º Jogo de planilha: Na licitação, ganha quem apresentar a melhor proposta. Se a equipe não se atenta para a composição da planilha de orçamento, o empreiteiro pode apresentar uma proposta mais barata com uma margem de lucro muito grande nas fases iniciais da obra e valores baixíssimos nas fases finais. Daí então, depois de fazer a parte boa do projeto, o empreiteiro pede realinhamento para concluir a obra ou simplesmente abandona a mesma.


8º Monitoramento inadequado da execução da obra: A obra precisa ser acompanhada constantemente. Quando deixam a coisa correr solta, é líquido e certo que erros de execução acontecerão e o tempo perdido com o retrabalho pode ser fatal.


9º Inexistência de uma gestão adequada dos riscos: Temos fama de ser otimistas por natureza, todavia, ser otimista não nos livra dos contratempos. Se algo pode dar errado, com certeza, mais cedo ou mais tarde dará errado, é muito melhor pensar o plano de contingência antes que a coisa desande. Ter que decidir na pressão aumenta grandemente a possibilidade de fracasso.


10º Cronograma feito para dar errado: Por exemplo, quando o cronograma prevê uma evolução constante sem considerar as especificidades do clima, ou seja, a estação das águas é totalmente ignorada, espera-se que o projeto siga no mesmo ritmo que seguiria durante a seca. Mais uma vez, o cronograma já nasce fadado ao fracasso.


Além disso, sempre há espaço para os atrasos do Governo Federal ou do Estado com a liberação das parcelas dos repasses e a burocracia natural de tudo o que é público, que quase sempre marcam presença. Quando esses dois fatores se combinam com empreiteiras com dificuldades em seus fluxos de caixa, a paralisação da obra é quase sempre fatal.

Econ. Alexandre B. Marques