SERIA POSSÍVEL INDUSTRIALIZAR A CIDADE DE CERES?


Enquanto economista, sempre fui questionado quanto ao problema da industrialização da cidade onde resido, Ceres.


As pessoas associam – corretamente – indústria a emprego e renda e, como o município em questão não apresenta uma taxa de crescimento populacional significativa há muito tempo, existindo muitos casos de migração de moradores para outras cidades, predominantemente Goiânia, muitos acreditam que a atração de empreendimentos industriais para o município seria algo urgente e necessário.


O mesmo se aplica a várias outras cidades da região do Vale de São Patrício, no Centro-Norte de Goiás, onde fica Ceres e, provavelmente, é tema central no debate sobre desenvolvimento local em diversos outras localidades Brasil a fora.


O problema é que a maioria das tentativas de promover industrialização nessas cidades não são adequadamente planejadas e, não raras vezes, resultam em projetos com baixo índice de sucesso.


Feitos esses apontamentos, vamos refletir um pouco sobre o caso de Ceres.


Estamos falando aqui de uma Cidade Polo típica, ou seja, o município em questão, juntamente com sua cidade irmã, Rialma, estão no centro de uma rede de localidades próximas, onde Ceres se especializou na oferta de serviços para atender à demanda da região. Desta forma, o que move a economia ceresina é a oferta de serviços de atenção à saúde, educação, serviços bancários, serviços públicos, profissionais liberais e comércio.


Os serviços ofertados são, geralmente, de média complexidade e acabam gerando uma boa quantidade de empregos, contudo, não o suficiente para absorver toda a mão de obra existente, daí a demanda por indústrias.


Todavia, qual é de fato, o grau de industrialização da cidade de Ceres?


Recorrendo ao CAGED – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, é possível responder a esta pergunta calculando o percentual de trabalhadores que atuam na indústria frente ao estoque total e pessoas trabalhando.


O quadro abaixo compara Brasil, Centro-Oeste, Goiás e Ceres:

Percebemos, portanto, que o estado de Goiás pertence ao clube dos estados que contam com uma parcela mais significativa de trabalhadores na indústria. Por outro lado, Ceres parece menos industrializada em nível estadual e em nível nacional, ficando um pouco acima do percentual percebido em termos de região Centro-Oeste.


Em outras palavras, Ceres está abaixo do percentual estadual, entretanto, é importante frisar que a oferta de empregos na indústria não está uniformemente distribuída entre os municípios e se encontra mais concentrada em pontos específicos do estado, Grande Goiânia, Eixo Goiânia-Anápolis-Brasília, regiões Sul e Sudoeste do estado.


Existe ainda uma boa quantidade de cidades pequenas, próximas a Ceres, que apresentam um percentual de trabalhadores da indústria relativamente elevado, Goianésia (37,2%), Itapaci (38,6%) e Jaraguá (45,4%) entre outras. Todavia, cabe deixar claro que um elevado índice de industrialização não é garantia de uma economia próspera ou de um elevado índice de desenvolvimento socioeconômico. Por exemplo, as quatro cidades brasileiras com maior potencial de desenvolvimento segundo a Infomoney (São Paulo, Florianópolis, Curitiba e Campinas) apresentam percentuais de trabalhadores registrados na indústria menores ou iguais a 12%, portanto, bastante abaixo da média nacional.


A dinâmica da inter-relação entre os municípios criando teias de desenvolvimento regional é muito mais complexa do que parece e, modificar essa estrutura não é coisa fácil. Além disso, existem fatores inerentes à microeconomia e ao processo decisório das empresas que precisam ser levados em conta, desta forma, cabe acrescentar mais um elemento à nossa análise: Qual são os fatores que determinam a escolha de um local para implantação de uma empresa?


Pena (2020) nos apresenta a seguinte lista de fatores locacionais para implantação de empresas:


1 – Mão de obra ampla e com qualificação profissional;

2 – Disponibilidade de matérias-primas;

3 – Incentivos ficais;

4 – Existência de infraestrutura logística;

5 – Infraestrutura energética favorável;

6 – Leis trabalhistas brandas e sindicatos limitados;

7 – Amplo e ativo mercado consumidor;

8 – Presença de empresas afins e redes de serviços correspondentes;

9 – Existência de instituições de ciência e tecnologia.


Ceres possui alguns desses predicados que podem ser utilizados como meios para atração de empresas, tais como a existência de instituições de ciência e tecnologia. Todavia, apresenta algumas fragilidades que dificultam um pouco as coisas, por exemplo, nossa mão de obra é comparativamente melhor instruída do que a mão de obra de municípios vizinhos, contudo, possui uma formação mais voltada para serviços do que para indústria. A cidade não possui escala em termos de produção de matérias primas para indústria, a localização geográfica do município dificulta um pouco a logística, exigindo investimentos relativamente elevados para torná-la mais competitiva e a distância de Goiânia e Brasília não é proibitiva mas, ainda assim, pode constituir um peso extra nos custos de transporte, não existindo um mercado consumidor local ou microrregional capaz de “bancar” a produção de investimentos industriais maiores. Além disso, o custo da energia elétrica também pode constituir entrave quando comparamos Ceres com outras cidades goianas.


Nesses termos, uma estratégia imediatista e pouco assertiva, acaba sendo recorrer a incentivos fiscais para compensar a perda de competitividade de empreendimentos instalados na cidade, no entanto, essa estratégia não se sustenta no longo prazo, podendo tornar o município “refém” da indústria “grande” instalada que, por ventura, venha a ser implantada aqui. Da mesma forma, criar os famosos Distritos Industriais, sem um planejamento específico não se revela uma jogada muito boa com o transcorrer do tempo, basta avaliar os resultados desses distritos espalhados pelo interior do estado.


Não obstante as dificuldades, é possível sim, trazer indústrias para Ceres, entretanto, a estratégia para a atração dessas indústrias teria que ser cuidadosamente desenhada e demandaria uma visão de longo prazo capaz de sobreviver às mudanças de governo, pois necessitaria de duas ou três décadas de continuidade para render os frutos esperados.


Cabe deixar claro que a lógica econômica para uma cidade como Ceres teria que levar em conta o fortalecimento da mesma enquanto cidade polo, ou seja, incentivar o setor de serviços de atenção à saúde, estimular a ampliação da oferta de cursos presenciais de nível técnico, tecnológico e superior e buscar incentivar o empreendedorismo na área de tecnologia aproveitando o conhecimento produzido nas instituições de ensino instaladas em nossa cidade, ações que podem constituir estratégia até mais assertiva em termos de geração de renda e formação do capital necessário para impulsionar o desenvolvimento econômico de Ceres e região.


Uma política pública de promoção do desenvolvimento econômico de Goiás por parte do Governo Estadual, visando orquestrar esse processo, buscando aproveitar de forma inteligente e simbiótica as potencialidades de cada região, evitando assim a competição destrutiva entre as cidades, também ajudaria bastante.


Por fim, o comprometimento da elite local em promover esse desenvolvimento por meio de um processo orgânico, endógeno e coeso, onde a autoridade governamental atue, não como principal protagonista, e sim como um dos atores dentre os empresários, as universidades, os hospitais e profissionais liberais que atuam em Ceres, poderia, realmente, constituir o fator decisivo para a efetiva deflagração de um processo sadio e sustentável de industrialização, ou melhor dizendo, desenvolvimento de todo o Vale de São Patrício.



Econ. Alexandre Bouças Marques

viabilidadeeconomica@gmail.com




Econ. Alexandre B. Marques