VALE A PENA SER UMA CIDADE POLO EM SAÚDE E EDUCAÇÃO?


Há seis dias escrevi um artigo no qual demonstrava que a economia da cidade de Ceres está estagnada há três anos.


Este artigo gerou alguns questionamentos dos leitores, de forma que – na medida do possível – tentarei esclarecer um pouco mais o assunto.


Em linhas gerais, a pergunta que ouvi dos leitores pode ser sintetizada da seguinte forma: Até que ponto é proveitoso para Ceres ser uma cidade polo em saúde e educação? A riqueza que é gerada aqui por esses setores, fica realmente aqui? Não seria melhor para nossa cidade se contássemos com uma indústria forte como nosso “carro chefe”?


Muito bem...


Primeiro, um pouco de história e geografia econômica:


Ceres surgiu como fruto de uma ação planejada do governo, no bojo da política de ocupação do oeste do país, o que remonta à Era Vargas, tendo contado com apoio da União e do Estado em sua instalação. Mais tarde, em decorrência da infraestrutura que herdou de sua fundação e de sua posição geográfica, foi usada durante o governo JK com base operacional para construção da rodovia Transbrasiliana, atual BR-153, em sintonia com o projeto de integração nacional que marca a segunda metade do século passado.


Isso faz de Ceres uma cidade bem específica, um tanto quanto diferente da maioria dos municípios brasileiros.


Essa origem diferenciada da nossa cidade foi determinante para transformar Ceres em um polo regional. A lógica é bastante simples: Ceres contava com os serviços públicos, hospitalares, educacionais, bancários etc. e, as cidades ao redor da mesma, aproveitavam a estrutura existente, estimulando outras áreas da economia nas quais elas poderiam obter resultados melhores.


Ao final desse processo, Ceres se especializou na oferta de serviços (e no comércio) enquanto as demais cidades em sua “zona de influência” se especializaram em agropecuária, agronegócio etc., se convertendo assim em “clientes” da cidade de Ceres.


O lado bom disso é que se as cidades da região estão bem, ou seja, se elas estão crescendo em suas especialidades, essa prosperidade tende a ser parcialmente drenada para Ceres por meio dos serviços especializados que são oferecidos aqui. O lado ruim é que, quando a economia das cidades vizinhas está mal, Ceres também encontra dificuldades. A lógica é mais ou menos semelhante à lógica do comerciante que se dá bem quando seus clientes tem dinheiro para gastar e que entra em apuros quando seus clientes ficam menos abonados.


Sair dessa dependência demanda esforço e requer tempo. Portanto, Ceres pode até mudar o perfil de sua economia passando a contar com uma indústria forte, todavia, transformações como estas levam de vinte a trinta anos para se consolidar. Ou seja, isso exigiria uma política de governo de longo prazo que sobrevivesse às oscilações do cenário político local o que demanda um grau de maturidade tremendo por parte dos atores políticos municipais.


Um caminho alternativo seria fortalecer ainda mais os setores que já estão fortes para que assim a nossa “clientela” aumentasse, ou seja, tornar-se melhor no que já somos bons para ampliar a nossa “zona de influência”, atraindo cada vez mais pacientes para nossas clínicas e laboratórios e cada vez mais estudantes para nossas instituições de ensino. Isso poderia ser feito com menos esforço uma vez que se tratam de arranjos produtivos locais já consolidados.


Quanto à retenção ou não de recursos financeiros provenientes da saúde e da educação em nossa cidade, é evidente que parcela significativa do que é ganho aqui acaba sendo reinvestido em outras localidades, todavia, devemos considerar que existem cadeias de suprimentos e interações entre setores que geram ganhos indiretos que precisam ser levados em consideração.


Analisando a base de dados do Ministério do Trabalho, por exemplo, observamos que a maior parte da força de trabalho de Ceres está concentrada no setor de serviços (45,9% dos empregos com carteira assinada) e que esses trabalhadores tem uma renda média 11,4% maior do que a média geral dos trabalhadores da cidade que é atualmente de R$ 2.044,37 por mês.


Quando comparamos serviços com indústria, constatamos que as pessoas que atuam no setor de serviços ganham 6,4% a mais do que as que atuam na indústria, sendo que o trabalhador da área de serviços de atenção à saúde, tem um remuneração média de R$ 2.282,65, bem maior do que a média municipal.


É obvio que o rendimento médio dos trabalhadores de uma clinica é elevado em decorrência do fato de que os médicos ganham substancialmente mais, o que explica o fato de termos um nível de desigualdade social acima da média nacional (tema para um artigo futuro), ainda assim, apenas a movimentação do dinheiro proveniente do setor de serviços em nossa cidade já possui um efeito multiplicador na economia local que não pode ser desprezado.


Mais uma vez exemplificando, considerei a seguinte hipótese: Se todos os trabalhadores da área de serviços que atuam em Ceres passassem a trabalhar na indústria e todos os trabalhadores da indústria ceresina passassem a trabalhar no setor de serviços, Ceres deixaria de ser um polo de oferta de serviços e passaria a ser uma cidade “industrializada”, todavia, a remuneração média da população cairia 2,5% e o comércio sofreria uma ligeira contração reduzindo também sua capacidade de remunerar melhor a sua força de trabalho. Essa queda de 2,5% significaria R$ 300.000,00 a menos do dinheiro pago aos trabalhadores da cidade. Se considerarmos que o dinheiro circula pela cidade – o que em economia chamamos de efeito multiplicador – e se entendermos que cada R$ 1,00 pago a um trabalhador equivale a R$ 5,00 movimentado no comércio local, podemos estimar que a economia de Ceres, nestas condições, deixaria de movimentar R$ 18.000.000,00 por ano, reduzindo ainda mais o seu Produto Interno Bruto.


Assim como não podemos garantir que o dinheiro de um investimento no setor de saúde em nossa cidade seja reinvestido aqui, não é possível garantir que o lucro de uma indústria ficaria retido em nosso município. Portanto, o setor de serviços, quando especializado, tende a atrair uma maior movimentação de capital não obstante a desigualdade social que lhe é peculiar.


Um antídoto para esse problema, poderia ser o estímulo ao desenvolvimento de setores que se comunicassem bem com a área de saúde, com a educação e com o agronegócio das cidades vizinhas. Neste sentido, a melhor opção seria estimular a área de tecnologia da informação. Isto poderia ser feito por meio das instituições de ensino superior e técnico instaladas na cidade, de forma integrada com os setores produtivos mais expressivos da região. Todavia, não basta simplesmente oferecer cursos na área de tecnologia, é preciso capacitar os estudantes para o mercado, com foco no empreendedorismo e buscando sempre reter esses jovens profissionais em nossa cidade. Assim, no futuro, poderíamos contar com um terceiro arranjo produtivo na área de desenvolvimento de soluções tecnológicas, o que não somente tornaria a economia de Ceres mais dinâmica e independente das economias da região, como também levaria a uma maior geração de renda, fazendo com que a cidade crescesse de forma mais sustentável.



Econ. Alexandre Bouças Marques

alexanderbmeconomista@gmail.com

Econ. Alexandre B. Marques